2.19.2008

19/02/2008 Revista VALOR Especial - Marcelinas gerem saúde de R$ 403 milhões

Marcelinas gerem saúde de R$ 403 milhões César Felício, de São Paulo
César Felício, de São Paulo
O orçamento sob seu controle é superior ao de 4.758 municípios no país. Por seus domínios já passaram todos os presidentes eleitos desde a redemocratização. Têm franco acesso ao gabinete do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e percorrem, com seu hábito branco, os gabinetes ministeriais e financeiros para manter um complexo que inclui quatro hospitais, 16 ambulatórios de assistência médica e 58 unidades do Programa de Saúde da Família. São 35 as irmãs da Congregação Marcelina que administram uma soma anual de R$ 403,6 milhões de recursos públicos na área da Saúde. É dinheiro da União, por meio do SUS, do Estado e do município de São Paulo. Dos quatro hospitais, três são organizações sociais (OS) e geridos de maneira independente do Hospital próprio - o modelo das têm algum parentesco com o modelo de fundação pública de Saúde proposto pelo ministro José Gomes Temporão. São veneradas pelos tucanos paulistas e respeitadas pelos petistas. Paranaense de 37 anos e consagrada freira há 17, a irmã Rosane Ghedin comanda a organização desde 2005. Como instituição filantrópica, a Congregação praticamente não conta com receita própria. Nos primeiros anos de seu mandato como administradora do complexo, irmã Rosane percorreu gabinetes em busca de ajuda para reestruturar financeiramente o Hospital Santa Marcelina, que chegou a acumular uma dívida de R$ 57 milhões em 2005. Irmã Rosane teve a ajuda do então cardeal de São Paulo, dom Claudio Hummes, para ser recebida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O contato com petistas amigos foi usado para conseguir uma audiência com o então presidente do BNDES, Guido Mantega, na tentativa de, sem sucesso, refinanciar uma linha de crédito de R$ 10 milhões com o banco estatal. Com os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin - atual e ex-governador de São Paulo, respectivamente -, o contato sempre foi fácil e a irmã contou com subvenções. Com o saneamento da instituição encaminhado - hoje, a dívida é de apenas R$ 8,8 milhões - as irmãs ampliaram a sua atuação e foram batalhar por recursos no Orçamento da União. O rol dos deputados amigos da Congregação na hora da apresentação de emendas é eclético: vai do PTB de Ricardo Izar e Arnaldo Faria de Sá ao PSDB de Vanderlei Macris e o PT de Paulo Teixeira, na Câmara. Na Assembléia Legislativa, conta com a boa vontade, entre outros, dos petistas Simão Pedro e Adriano Diogo. Foi graças a uma emenda do último, por exemplo, que as irmãs puderam pagar o décimo-terceiro salário de seus funcionários. O ecletismo das relações políticas das Marcelinas não esconde, contudo, um entrosamento maior das freiras com o PSDB. "A aproximação delas com Serra e Alckmin é umbilical. Temos consciência disso. Mas as irmãs merecem ajuda pela maneira que tentam ampliar os critérios de atendimento do SUS. Sempre brigaram para ampliar os níveis de cobertura pública. Agora o prestígio delas é usado pelo governo tucano para blindar o modelo de organizações sociais, que é questionável", afirma Diogo. Está no gigantismo da estrutura das irmãs Marcelinas parte do lastro que garante o trânsito político às religiosas. Fundado em 1961, o hospital Santa Marcelina, com 750 leitos, é a única porta de entrada para o atendimento médico entre os cerca de 200 mil moradores do bairro de Itaquera. Faz, por ano, 900 mil atendimentos de pronto-socorro, internações e consultas. Nada menos que 86% são feitos pelo SUS. "É o verdadeiro Hospital das Clínicas da Zona Leste", comenta o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), autor de uma emenda no Orçamento da União que destina R$ 1 milhão para a manutenção da entidade. "Há três outras grandes entidades filantrópicas de Saúde na cidade: Santa Casa de Misericórdia, Hospital Santa Catarina e Hospital São Paulo. Mas a única que está em uma região carente é o hospital das Marcelinas", explica.